Em Maceió, a orla é do turista, o prejuízo fica com quem mora e trabalha nela

Na Pajuçara, o turista chega primeiro. Sempre chega.
Chega com chinelo novo, câmera pendurada no pescoço, protetor solar fator cinquenta e a certeza de que tudo ali foi feito para ele. E foi mesmo. Enquanto isso, o nativo chega depois, quando chega. Às vezes nem chega, porque não tem onde parar, onde trabalhar, onde existir.
Na sexta-feira (9), uma obra começou em silêncio, como quem não quer conversa. Não avisou o guia, não perguntou ao barraqueiro, não pediu licença a quem vive da orla o ano inteiro. O estacionamento da Pajuçara, que não é só chão asfaltado, mas ponto de apoio, escritório improvisado e sustento de muita gente, virou tapume em plena alta temporada.
Curioso é que o projeto já tinha sido mostrado ao trade turístico. Bonito, moderno, cheio de promessas. Só esqueceram de contar um detalhe pequeno: quando tudo isso começaria. E começaram justo quando a cidade está cheia, quando o sol chama gente do Brasil inteiro, quando o trabalho do nativo vale mais, porque é dele que a cidade vive.
Dizem que é requalificação. Palavra bonita. Cabe bem em folder institucional. Mas, na prática, requalificar para quem? Para quem passa uma semana e vai embora com foto no pôr do sol? Ou para quem passa a vida inteira montando barraca, vendendo passeio, explicando história, sustentando família?
Na Pajuçara, mais uma vez, ficou claro, o turista tem vez. O nativo, se atrapalhar a paisagem, que espere. Espere o fim da obra do JHC, espere a próxima reunião, espere uma alternativa que talvez nunca venha.
Porque, por aqui, o cartão-postal vale mais que o trabalhador que o mantém de pé.


