A falta que Jô Soares faz: quando a reflexão é tão necessária quanto o riso


A ausência de Jô Soares na televisão e no debate público brasileiro vai muito além da saudade de um grande apresentador ou humorista. O que faz falta, sobretudo, é a sua capacidade rara de refletir sobre a vida com profundidade, sobriedade e humanidade — inclusive nos temas mais delicados, como a dor, a perda e o luto.

Em um vídeo que voltou a circular recentemente, Jô fala sobre a morte de seu único filho sem recorrer ao drama ou à comoção explícita. Há pausas, contenção emocional e um cuidado extremo com as palavras. Não se trata de frieza, mas de um luto já vivido, integrado à sua identidade. Um sofrimento que não explode, mas permanece. Silencioso, maduro, permanente.

Ao fazer isso, Jô desmonta uma das maiores ilusões sociais sobre o luto: a ideia de que o tempo “cura” tudo. Sua fala deixa claro que certas perdas — especialmente a de um filho — não se resolvem. Aprende-se a conviver com elas. O tempo não apaga, apenas ensina a carregar.

Esse tipo de reflexão, vindo de alguém conhecido pelo humor afiado, pela inteligência e pela ironia, ganha ainda mais força. O contraste entre o Jô público, símbolo de riso e leveza, e o homem diante da dor reforça uma mensagem poderosa: o sofrimento não escolhe personagens, títulos ou talentos. Ele atravessa a todos.

Ao falar com serenidade, Jô Soares também legitima a dor silenciosa de milhares de pessoas que não sabem — ou não conseguem — expressar o que sentem. Ele mostra que é possível seguir vivendo sem trair a memória de quem se foi, sem transformar a dor em espetáculo, sem negá-la.

Num tempo em que o debate público se tornou raso, acelerado e frequentemente barulhento, fazem falta vozes como a de Jô: capazes de unir humor e pensamento, inteligência e empatia, silêncio e significado. Sua ausência deixa um vazio que não se preenche apenas com entretenimento, porque Jô nunca foi só entretenimento. Ele foi, e continua sendo, um convite à reflexão sobre o que nos torna humanos.

Mais do que um grande comunicador, Jô Soares foi um tradutor sensível da complexidade da vida. E é exatamente isso que hoje sentimos falta: alguém que nos faça rir, sim — mas que também nos ajude a entender, com honestidade e respeito, as dores que não passam.

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