Memória curta na política: quando a crítica volta como espelho

O ex-prefeito de Palmeira dos Índios, James Ribeiro, voltou ao debate político local ao publicar um vídeo nas redes sociais comentando o rompimento da vice-prefeita Sheila Duarte com o grupo liderado pelo ex-prefeito Júlio Cezar.
No vídeo, James tenta reconstruir a narrativa política recente ao lembrar que Sheila teria passado por um processo de “humilhação” para ser escolhida como vice na chapa encabeçada pela prefeita Luísa Júlia, na eleição passada. Segundo ele, a escolha da vice teria sido pavimentado de humilhação.
A tentativa de criar um enredo de vítima, no entanto, esbarra em um detalhe que muitos palmeirenses não esqueceram.
Se Sheila chegou à chapa sem grande densidade eleitoral, o próprio James também tem uma trajetória marcada por apoios decisivos que acabaram terminando em ruptura. E talvez o episódio mais emblemático seja justamente o que envolve o ex-vice-prefeito Vicente Gomes Targino, já falecido.
O aliado que abriu o caminho
Targino não era um desconhecido na política local. Vereador por cinco mandatos, construiu uma base popular sólida e era conhecido por ações sociais que marcaram a cidade. Entre elas, uma atuação constante no auxílio à população mais carente, ajudando com consultas, exames e encaminhamentos médicos. Não por acaso, muitos moradores diziam que Vicente Targino “era o plano de saúde do pobre”, tamanha a quantidade de pessoas que recorriam a ele quando precisavam de atendimento.
Foi esse capital político e essa ligação direta com a população que ajudaram a devolver a eleição de James para o seu segundo mandato à frente da prefeitura. Mas a parceria não durou.
Pouco mais de dois após a eleição, Targino acabou sendo expulso da prefeitura, ficando sem gabinete, um gesto que muitos, à época, interpretaram como um rompimento duro com quem havia ajudado a construir o caminho da vitória.
O silêncio e o reconhecimento popular
Em 2016, enquanto enfrentava um câncer no aparelho digestivo, Targino passou três meses internado no Hospital Arthur Ramos, em Maceió. Morreu aos 58 anos, deixando uma lacuna na política e na rede de apoio social que havia construído ao longo de décadas de vida pública.

No dia do sepultamento, uma multidão se reuniu para se despedir daquele que muitos consideravam um verdadeiro defensor dos mais pobres. Entre familiares, amigos, eleitores e lideranças políticas, também esteve presente o então prefeito James Ribeiro.
Mas o clima do momento dizia muito mais sobre quem realmente havia conquistado o coração da população. Em meio à comoção, o reconhecimento popular se voltava para a trajetória de Targino, lembrado pelo trabalho social e pela proximidade com as pessoas. A presença de James, embora registrada, passou praticamente despercebida diante da comoção coletiva em torno da memória do ex-vice-prefeito.
Entre narrativas e realidade
Ao comentar episódios recentes da política local, James Ribeiro reacende discussões sobre alianças, rupturas e memórias que ainda permanecem vivas na história política de Palmeira dos Índios.
Porque, na política, discursos e versões podem até mudar com o tempo. O que dificilmente muda é a memória de uma cidade inteira sobre quem esteve ao lado da população nos momentos difíceis, e quem se afastou quando o poder falou mais alto.
Em Palmeira dos Índios, essa lembrança continua viva. E, para muitos, o nome de Vicente Targino permanece associado não apenas à política, mas a uma forma de fazer política próxima das pessoas, marcada pelo serviço e pela presença.
