Mãe com doença autoimune dá à luz bebê com peso de uma lata de refri

A gravidez costuma trazer diversas mudanças na rotina, mas para Tamiris Duarte, 35 anos, o período veio acompanhado de um diagnóstico inesperado. Ainda no primeiro trimestre da gestação de gêmeos, ela descobriu uma doença renal autoimune e precisou iniciar hemodiálise diária até o parto.

O tratamento, necessário para manter a saúde da mãe, acabou influenciando o desenvolvimento dos bebês, que nasceram prematuros extremos, mas hoje estão saudáveis após cinco meses de internação.

Tamiris e o marido, Danilo Lopes, de 36 anos, tentavam engravidar quando receberam a confirmação da gestação no início de 2025. A surpresa foi ainda maior ao descobrir que seriam gêmeos. “A gravidez foi natural. A gente não imaginava que seriam dois, apesar de ele sempre brincar que teria gêmeos”, conta.

Por volta do terceiro mês, ela começou a perceber inchaço nas mãos e nos pés. Inicialmente, associou ao fato de estar grávida de gêmeos, até que um episódio de sangramento levou a gestante ao hospital. Os exames mostraram creatinina muito elevada e pressão difícil de controlar.

Pouco tempo depois veio o diagnóstico de insuficiência renal severa. “Eu já tinha hipertensão, mas nunca tinha recebido diagnóstico de doença nos rins. A gravidez acabou sobrecarregando tudo”, explica.

Tamiris chegou a ficar internada na UTI e, ainda grávida, iniciou sessões de hemodiálise todos os dias. O tratamento exigia deslocamentos frequentes entre Itapevi, na Grande São Paulo, onde mora, e hospitais da capital. “Foram meses muito cansativos. Sempre trabalhei e, de repente, passei a depender totalmente dessas idas ao hospital”, relata.

A hemodiálise durante a gestação é considerada um procedimento possível e, em muitos casos, essencial. Segundo o obstetra Eduardo Cordioli, diretor técnico de obstetrícia do Hospital e Maternidade Santa Joana, o tratamento ajuda a preservar a saúde da mãe e do bebê quando há comprometimento importante dos rins.

“Ela salva vidas e pode ser feita com segurança, desde que em centros especializados. Normalmente aumentamos a frequência das sessões para manter o sangue mais limpo e reduzir riscos para o bebê”, explica.

Doença autoimune descoberta na gravidez

A causa do problema foi esclarecida depois, com a realização de uma biópsia renal ainda durante a gestação. O exame confirmou nefropatia por IgA, também conhecida como doença de Berger, uma condição autoimune que atinge diretamente os rins.

“Esse anticorpo se deposita nos glomérulos, que são os filtros do rim. Com o tempo, isso provoca inflamação, o filtro vai perdendo a função e pode evoluir para insuficiência renal que exige diálise”, afirma o especialista.

Os sinais nem sempre aparecem de forma evidente. O mais comum é presença de sangue ou proteína na urina, além de inchaço e pressão alta. “Muitas vezes a doença é silenciosa e acaba sendo descoberta justamente nos exames de rotina do pré-natal”, diz.

Segundo o médico, a gravidez pode acelerar quadros renais já existentes, mesmo quando ainda não diagnosticados. “A gestação exige cerca de 50% a mais da função renal. Quando a mulher já tem alguma alteração, isso pode fazer a doença evoluir mais rapidamente”, aponta.

Prematuridade e parto de emergência

Desde o início, a equipe médica alertou que a condição poderia impactar o crescimento dos bebês. Os ultrassons mostravam ganho de peso abaixo do esperado.

Na 26ª semana de gestação, durante uma sessão de hemodiálise, Tamiris apresentou sangramento intenso provocado por descolamento de placenta e precisou passar por um parto de emergência.

O pequeno Salvattore nasceu com apenas 390 gramas, peso comparável ao de uma latinha de refrigente, se tornando o menor bebê registrado na maternidade nos últimos cinco anos. A irmã gêmea, Pietra Felicitá, nasceu com 595 gramas.

“Quando o vi pela primeira vez, fiquei assustada com o tamanho. Meu marido viu antes, só consegui conhecê-lo três dias depois”, relembra.

Os dois permaneceram cerca de cinco meses na UTI neonatal recebendo cuidados intensivos. Segundo a mãe, o período foi desafiador física e emocionalmente, especialmente porque ela continuou a hemodiálise logo após o parto. “Tive alta e no dia seguinte já estava fazendo sessão novamente”, relata.

Recuperação e acompanhamento

Apesar da prematuridade extrema, os gêmeos não apresentaram sequelas. O desenvolvimento motor, neurológico e cognitivo é considerado adequado pela equipe médica, embora o acompanhamento continue.

Hoje, Tamiris segue em hemodiálise três vezes por semana enquanto aguarda transplante renal. A doença afetou os dois rins, e o tratamento segue sem previsão imediata de término.

Ela destaca o apoio do marido e da equipe de saúde como fundamentais durante todo o processo. “Criamos vínculo com as profissionais da UTI. Quando veio a alta foi felicidade, mas também saudade”, conta.

Para a família, a recuperação dos bebês trouxe alívio após meses de incerteza. “Depois de tudo, ver os dois bem em casa dá esperança para outras mães que passam por situações parecidas”, declara.

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