Sem definir 2026, Alfredo Gaspar critica esvaziamento da Câmara e mira protagonismo no Senado
Único deputado federal de Alagoas que ainda não definiu publicamente qual será seu destino eleitoral em 2026, Alfredo Gaspar (União Brasil) mantém o suspense em meio a um cenário político marcado por forte concentração de poder e disputas estruturais no estado. Em entrevista ao canal de TV do Portal 360, na quarta-feira (4), ao jornalista Guilherme Waltenberg, o parlamentar evitou confirmar uma candidatura, mas fez sinalizações claras sobre o Senado como espaço político mais estratégico no atual desenho institucional do país.
Ao comentar as especulações que o colocam na disputa majoritária, Gaspar afirmou que não parte dele o movimento de antecipação eleitoral. Ainda assim, usou a entrevista para fazer uma crítica mais profunda ao funcionamento do sistema político em Brasília, especialmente à relação entre os Poderes. Para o deputado, a Câmara vive hoje um esvaziamento de prerrogativas. “Existe uma impotência generalizada do sistema parlamentar diante da sobreposição de poderes. No Senado, há uma possibilidade maior de decisão sobre os rumos da nação”, afirmou.
A fala não ocorre de forma isolada. Ela se insere em um contexto no qual parlamentares buscam reposicionamento diante de um Congresso cada vez mais tensionado por decisões do Judiciário e por disputas internas de poder. Nesse cenário, o Senado aparece como um espaço de maior peso político e institucional, sobretudo para figuras que desejam ampliar influência nacional.
Gaspar também recorreu à própria trajetória para reforçar o discurso de independência política. Ex-integrante do Ministério Público, de onde pediu exoneração para ingressar na vida eleitoral, ele relembrou o histórico de atuação no combate à corrupção e à criminalidade. Destacou ainda que foi o deputado federal mais votado de Maceió e o segundo mais votado do estado, sem apoio formal de prefeitos ou estruturas municipais — um dado que ele utiliza como contraponto ao modelo tradicional de campanhas em Alagoas.
“Eu entrei na política para enfrentar exatamente aquilo contra o que lutei durante a minha carreira. Não tenho medo de ficar sem mandato. Meu compromisso é honrar o mandato até o fim, com coerência entre o que falo em público e o que pratico no privado”, declarou.
Apesar de admitir articulações políticas nos últimos meses, Gaspar afirmou que qualquer definição sobre candidatura dependerá da leitura do cenário e da resposta popular. O discurso reforça uma estratégia de manutenção de capital político sem antecipar movimentos, em um tabuleiro ainda em formação para 2026.
O deputado foi mais incisivo ao analisar o sistema político alagoano, que classificou como desigual e fortemente baseado em estruturas de poder local. Segundo ele, campanhas majoritárias no estado costumam ser decididas por alianças com prefeitos e vereadores, além de forte capacidade financeira. “Eu não tenho base municipal, não tenho prefeitos ligados a mim e não disponho de recursos para uma grande campanha. Ainda assim, acredito ser possível disputar, mesmo em uma clara desigualdade de armas”, afirmou.
Ao ser provocado sobre a influência de nomes como Arthur Lira (PP) e Renan Calheiros (MDB), Gaspar defendeu a necessidade de uma reconfiguração do cenário político, com o surgimento de uma terceira força. Para ele, embora esses grupos detenham grande prestígio em Brasília, há sinais de desgaste e resistência no eleitorado local.
“O voto estruturado ainda é muito forte, baseado em acordos políticos, mas o eleitor está mais livre e mais crítico. Muitas vezes, essas estruturas esquecem de dialogar com a base. Minha eleição mostrou que existe espaço para candidaturas fora desse modelo tradicional”, avaliou.
Na leitura do parlamentar, Alagoas vive um processo gradual de amadurecimento político, no qual a influência das máquinas eleitorais começa a ser confrontada por escolhas mais autônomas do eleitorado. Um movimento que, segundo ele, pode redefinir o jogo político nos próximos pleitos.



