A sobrecarga invisível das mães de autistas — e o apoio da psicologia no cuidado

Por Sérgia Mônica Nascimento

 Por que tantas mães adoecem em silêncio — e como a psicologia se torna um ponto de sustentação fundamental

Ser mãe de uma criança autista é viver entre o amor profundo e uma rotina de desafios que poucas pessoas enxergam. Por trás das consultas, terapias, crises sensoriais, ajustes cotidianos e vigilância constante, existe uma sobrecarga emocional silenciosa — um cansaço que não grita, mas pesa todos os dias.A maioria dessas mães vive em alerta permanente: organizam agendas terapêuticas, mediam conflitos, estudam sobre o transtorno, lutam por direitos e ainda tentam equilibrar trabalho, vida pessoal e autocuidado. Muitas relatam culpa, exaustão, solidão e a sensação de que não podem “desmoronar”, porque a família depende delas.

Pesquisas mostram que mães de crianças autistas apresentam índices significativamente mais altos de ansiedade, depressão, culpa crônica e estresse. A rotina exige atenção permanente, planejamento constante e vigilância emocional, muitas vivem o dia em “modo de sobrevivência”, acumulando responsabilidades que, na maioria das vezes, recaem exclusivamente sobre elas. E quando o peso aperta, o silêncio é a companhia mais comum: silêncio para não parecer fraca, silêncio porque a sociedade exige que elas “aguentem”; essas mulheres cuidam de tudo, menos de si mesmas, pois as adaptações e desafios diários exigem energia emocional constante, sem cessar, e delas espera-se que suportem, chamam essas mães de fortes, aplaudem sua dedicação, admiram sua coragem, mas raramente perguntam: quem cuida da saúde mental delas?

O fato é, quando uma criança autista nasce, nasce também uma mãe que aprende a se multiplicar, elas aprendem a amar enquanto reorganizam suas vidas, a segurar crises enquanto seguram a si mesmas, a sorrir enquanto escondem preocupações profundas.Elas levantam todos os dias, mesmo quando o mundo delas está cansado, junto com um peso emocional que ninguém enxerga. São mulheres que amam profundamente, equilibram esperança e cansaço, força e fragilidade, rotina e improviso.A vida em alerta permanente – para muitas mães, o dia nunca “termina”;elas dormem em estado de vigília, acordam no menor movimento do filho, monitoram comportamentos, planejam antecipadamente situações sociais que possam gerar crises e, em muitos casos, lidam com o medo diário do preconceito.

Elas vivem por seus filhos — mas também precisam existir por si mesmas.

A solidão emocional dessas mães muitas das vezes vem com falta de rede, falta de respiro, falta de cuidado. Umsocorro para essas mães é urgente: não queremos ser heroínas, queremos ser cuidadas.

Cabe ressaltar, que apesar dos avanços nas legislações, a ausência de políticas públicas voltadas para as mães de autistas é um dos pontos mais negligenciados na pauta do TEA no Brasil; hoje, o país dispõe de leis que garantem atendimento multidisciplinar à pessoa autista — mas não há legislação que assegure suporte psicológico regular às mães e cuidadoras, elas seguem invisíveisnão existe garantia de suporte contínuo pelo SUS para cuidadoras primárias; eu Sérgia Mônica defendo aqui ações prioritárias urgentes como:psicoterapia gratuita e permanente, grupos terapêuticos e rodas de acolhimento, programas de apoio à saúde mental materna, campanhas públicas sobre exaustão materna, espaços comunitários para suporte emocional e orientação, sem isso, continuaremos a exigir que mães exaustas sustentem um sistema que não as sustenta.

O cuidado com as mães não pode depender apenas da boa vontade de clínicas e projetos sociais — precisa ser política de Estado.

Diante desse contexto, afirmo que o acompanhamento psicológico é um recurso essencial — não por fraqueza, mas por humanidade e respeito a essas mulheres – mães de crianças autistas carregam responsabilidades emocionais e logísticas que ultrapassam o comum, e precisam de um espaço onde possam, falar sem julgamento, organizar emoções, aprender estratégias para lidar com crises e comportamentos desafiadores, reduzir a culpa e a exaustão, sobretudo, reencontrar identidade além da maternidade.

A psicologia não resolve os desafios objetivos, mas transforma completamente o modo como a mãe atravessa essa jornada.As mães de autistas carregam um fardo que não deveria ser solitário, elas precisam — e merecem — ser vistas, ouvidas e cuidadas.

A psicologia é um caminho possível, eficaz e acessível para devolver a essas mulheres algo essencial:espaço para existir como pessoa, e não apenas como cuidadora.

É comprovado: quanto mais apoiada emocionalmente está a mãe, melhor a criança se desenvolve. O cuidado materno é um dos pilares do cuidado infantil.

Sérgia Mônica Nascimento

Psicóloga clínica – Especialista em Saúde Mental – Neuropsicóloga

Pós-Graduada em ABA- Análise do Comportamento Aplicada

TDAH e Dislexia / Psicopedagogia

Pós-graduanda em Desenvolvimento infanto Juvenil – CBI Of Miami

Membro da Comissão de pessoas com deficiência do Conselho de Psicologia 15a  Região

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