Março, mês das mulheres, termina com alta alarmante de feminicídios e violência em todo o Brasil
O mês de março, marcado pelo Dia Internacional da Mulher e por campanhas de conscientização, tem sido acompanhado por um cenário preocupante no Brasil: o aumento de casos de feminicídio e tentativas de assassinato contra mulheres.
Em janeiro de 2026, o Judiciário brasileiro registrou 947 novos casos de feminicídio. O número é 3,49% superior ao registrado em janeiro do ano passado, quando ingressaram 915 novos casos.
O índice apresenta crescimento constante e praticamente triplicou em cinco anos: de 4.210 novas ocorrências processuais em 2020 para 12.012 em 2025. Os dados constam no Painel de Estatísticas do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que registra os indicadores do Judiciário.
De forma geral, os índices de violência doméstica chegaram a 99.416 novos processos apenas em janeiro deste ano. Em todo o ano de 2025, esse dado alcançou o patamar de 1,2 milhão de registros.
A busca por medidas protetivas também registra alta. No ano passado, esse indicador foi recorde, com quase 630 mil medidas concedidas, em comparação a 612 mil em 2024. O volume atual corresponde a mais do que o dobro do registrado em 2020 (287.427). Apenas em janeiro de 2026, foram concedidas mais de 53 mil medidas protetivas.
Estados como São Paulo, Bahia e Minas Gerais aparecem entre os que concentram os maiores números absolutos de casos, enquanto unidades da região Nordeste apresentam crescimento proporcional significativo, incluindo Alagoas.
Em 2025, Alagoas registrou ao menos 29 casos de feminicídio, segundo dados do Ministério da Justiça e da Secretaria de Segurança Pública. O número representa um aumento de 31,8% em relação ao ano anterior, evidenciando o avanço da violência letal contra mulheres. Entre janeiro e novembro do mesmo ano, foram registrados 8.924 casos de violência doméstica e familiar contra mulheres, uma média de mais de 26 ocorrências por dia.
Além dos casos fatais, a violência contra a mulher é muito mais ampla. Uma pesquisa nacional aponta que cerca de 3,7 milhões de brasileiras sofreram violência doméstica ou familiar em 2025. Em Palmeira dos Índios, 267 mulheres possuem medidas protetivas e são acompanhadas pela guarda municipal.

Perfil das vítimas brasileiras
Outro dado que chama atenção é o perfil das vítimas. A maioria dos casos envolve mulheres jovens, principalmente entre 18 e 29 anos, e os agressores são, em grande parte, companheiros ou ex-companheiros, reforçando o caráter doméstico da violência. Situações de ciúmes, término de relacionamento e controle sobre a vida da mulher aparecem como motivadores recorrentes.
Especialistas apontam que o aumento da violência contra a mulher não está ligado apenas a fatores pontuais, mas a um conjunto de problemas estruturais. “Entre eles, destacam-se o machismo enraizado na sociedade, a dificuldade de romper ciclos de violência doméstica, a dependência financeira e emocional das vítimas em relação aos agressores, além da sensação de impunidade”, disse a psicóloga Adriana Lopes.
Outro fator relevante é o aumento das denúncias, impulsionado por campanhas de conscientização e maior acesso a canais como o Ligue 180. Embora esse crescimento indique maior visibilidade do problema, também revela a dimensão real de uma violência historicamente subnotificada.
Lei Maria da Penha
Apesar da existência de leis como a Lei Maria da Penha e a tipificação do feminicídio no Código Penal, ainda há desafios na efetiva aplicação das medidas protetivas e na prevenção dos crimes. Falhas no acompanhamento de denúncias e na estrutura de atendimento às vítimas contribuem para que casos evoluam para desfechos mais graves.
Enquanto o mês de março deveria simbolizar avanços e conquistas, os números evidenciam que a luta pela segurança e pela vida das mulheres ainda está longe de ser vencida no Brasil.
