Atrasos e retenções marcam Carnaval de Salvador e acendem debate sobre organização dos circuitos
O Carnaval de Salvador 2026 tem sido palco não apenas de grandes apresentações, mas também de uma série de reclamações envolvendo atrasos e retenções nos principais circuitos da festa. Artistas e blocos tradicionais vieram a público questionar o chamado “engarrafamento” de trios elétricos, que tem impactado a fluidez dos desfiles e levantado preocupações quanto à segurança dos foliões.
As queixas ganharam força após manifestações de nomes como Anitta, Bell Marques, o bloco afro Olodum e o tradicional Filhos de Gandhy. De cima dos trios e também pelas redes sociais, os artistas expuseram dificuldades enfrentadas ao longo do percurso, especialmente no circuito Barra-Ondina (Dodô), atualmente o mais movimentado da folia.
Circuitos cheios e tempo de percurso prolongado
No circuito Osmar (Campo Grande), o trajeto vai do Corredor da Vitória à Praça Castro Alves, podendo se estender pela Avenida Carlos Gomes. Já no circuito Dodô (Barra-Ondina), o percurso tem início no Farol da Barra e segue até o monumento “As Meninas do Brasil”, conhecido popularmente como “As Gordinhas”. Em condições normais, o tempo médio de desfile entre um ponto e outro gira em torno de cinco horas — duração que pode aumentar diante de retenções e paradas prolongadas.
A programação oficial com a ordem dos trios foi divulgada pela Prefeitura de Salvador na véspera da abertura da festa. A definição da fila leva em conta blocos privados e trios sem cordas, sendo estabelecida pelo Conselho Municipal do Carnaval e Outras Festas Populares (Comcar).
Anitta questiona intervalo entre trios
Na sexta-feira (13), durante apresentação no circuito Dodô, Anitta interrompeu o show para explicar aos foliões que não conseguia avançar devido à presença de outro trio à frente. Segundo a artista, seguir adiante poderia agravar a aglomeração e comprometer a segurança do público da “pipoca”.
“Eu tô tentando andar, mas tem outro trio aqui na frente. Não consigo criar asa”, disse a cantora, ao justificar a parada.
Após o desfile, ela sugeriu que um maior espaçamento entre as saídas dos trios poderia melhorar o fluxo e reduzir o aperto nas ruas. A artista ressaltou que reconhece a tradição do carnaval baiano, mas defendeu ajustes operacionais para tornar a experiência mais segura.
Bell Marques relata retenção e cobra soluções
No domingo (15), Bell Marques também enfrentou retenção no circuito Dodô. O cantor afirmou que o bloco Camaleão ficou parado por conta de um problema envolvendo o trio do Olodum, que desfilava à frente.
Segundo Bell, a situação compromete o ritmo do desfile e gera desconforto para os foliões. Ele destacou ainda que decidiu manter o trio parado em determinado momento para evitar tumultos, diante da dificuldade de circulação do público.

Em nota, o Olodum informou que identificou dois pneus esvaziados em um carro de apoio no momento da saída, apesar de vistoria prévia realizada. O grupo também afirmou que, por orientação da Polícia Militar, ficou alguns minutos sem tocar devido à grande concentração de pessoas, como medida preventiva.
O Departamento Estadual de Trânsito da Bahia (Detran-BA) iniciou as vistorias em trios e veículos de apoio antes da abertura oficial da festa. Ainda assim, problemas mecânicos ao longo do percurso continuam sendo registrados e impactam o andamento dos desfiles seguintes.
Divergência sobre horários na concentração

Na segunda-feira (16), uma nova discussão envolveu Bell Marques e o Filhos de Gandhy. Representantes do afoxé afirmaram que havia acordo para que o bloco Camaleão saísse às 16h, enquanto o cantor sustentou que iniciou o desfile dentro do horário previsto.
A Prefeitura não divulga horários detalhados de cada atração, informando apenas o horário geral de início dos desfiles. A ordem das apresentações, no entanto, tem sido alvo de questionamentos frequentes, inclusive na Justiça. A cantora Daniela Mercury chegou a obter decisão favorável para abrir os desfiles no circuito Barra-Ondina, mas a medida foi posteriormente revertida pelo Comcar.
Debate sobre organização e segurança
As recorrentes retenções reacendem o debate sobre a logística do Carnaval de Salvador, que reúne milhões de foliões e dezenas de trios por dia. Artistas defendem ajustes no espaçamento entre os blocos e maior previsibilidade na programação, enquanto o poder público busca equilibrar tradição, interesses privados e segurança.
Em meio às discussões, o desafio permanece: garantir que a maior festa de rua do país mantenha sua grandiosidade sem comprometer a experiência e a integridade de quem participa da folia.
*Com informações do G1
Fotos: Ana Raquel/Luan Leite/Ag FPontes


