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O espetáculo da morte de Lampião



Após mais de vinte anos no cangaço, Lampião podia gabar-se de ter se tornado um personagem público. No final dos anos 1930, Lampião não mais sobrevivia graças a ataques armados, e sim porque havia conseguido tecer uma rede de relaçoes de clientela e corrupção no interior do Nordeste. Era praticamente evidente que as forças de polícia acomodavam-se a este estado de fato. No entanto, essa rede não pode resistir ao sistema autoritário imposto pelo Estado Novo a partir de 1937. Para o regime de Getúlio Vargas, era inadmissível que Lampião continuasse a desafiar não apenas as autoridades policiais, mas todo o sistema político centralizador sobre o qual repousava a ditadura recém instaurada. Sob pretexto de impedir qualquer manifestação de desordem sobre o território nacional, o Estado Novo, a partir de 1937, incluiu Lampião e seus cangaceiros na categoria dos “extremistas”. A sentença não tardou: era preciso matá-los.

A partir de 1935, as forças de polícia liquidaram sumariamente importantes chefes de grupo. Esses extermínios foram assunto de inúmeros artigos da imprensa brasileira, ao mesmo tempo para mostrar publicamente a Lampião que sua margem de manobra estreitava-se cada vez mais, e para explicitar que o poder central comprometia-se a dar fim á violência e a reduzir a criminalidade no sertão. Com a perda de sua especificidade cultural e regional, Lampião já não era mais considerado um inimigo do sertão, encerrando em suas fronteiras impenetráveis, e passava a ser um inimigo do Brasil.

No dia 28 de julhode 1938, depois de uma traição, o tenente João Bezerra, á frente de uma volante, surpreendeu Lampião e seus 48 cangaceiros em seu esconderijo na grota de Angico, no estado do Sergipe. Lampião, sua mulher Maria Bonita e outros nove cangaceiros foram mortos.

Para Balão, um velho cangaceiro cujo testemunho foi reproduzinho na revista Realidade, em 1973- quase quarenta anos após o drama-, até o momento do combate de Angico, Lampião parecia dotado de uma invulnerabilidade na qual seus companheiros nunca deixaram de acreditar. Balão exprime a extrema surpresa provocada pela morte de Lampião nesse combate, que compara a um massacre. O ataque da volante havia semeado pânico entre os cangaceiros encurralados. Anos depois, revivendo a intensidade emocional dessa cena de massacre, em que pereceram seus companheiros, consciente de ter sido apanhado no turbilhão de uma tragédia, Balão reconhece que precisou ignorar suas emoções e abandonar todo e qualquer sentimentalismo para não morrer. Balão dá a entender que o combate de Angico foi o teatro do enfrentamento de forças muito mais importantes do que a dos soldados de João Bezerra. A hecatombe final estava programada por vontade divina: a morte do chefe já não era, então, absurda, mas parecia ser guiada pela mão de Deus. ” Eu tinha a impressão de que a metralhadora tinha espalhado sua desgraça no momento escolhido pela sorte. Para mim, era obra de Deus.”

Após o “massacre”, as volantes de João Bezerra “rapidamente” decapitaram os cangaceiros com facas afiadas, e depois agiram de modo que a população pudesse enfim expressar sua alegria ao ver a cabeça de Lampião – essa cabeça que se tornou então, “a imagem vida da morte”.

Os matadores de Lampião acreditaram ter obliterado sua imagem. Em uma espécie de resposta á alegação de poder e invunerabilidade do célebre cangaceiro, decapitaram-no e exibiram sua cabeça e a de seus companheiros como troféus, afim de mostrar aos olhos do mundo que esse corpo fechado, impermeável as balas e as facas, podia ser fragmentado. A morte de Lampião foi objeto de uma encenação, e seus adversários recorreram a todo um simbolismo religioso: as cabeças de Lampião e de seus companheiros foram transportadas de cidade em cidade, de vilarejo em vilarejo, em uma espécie de procissão macabra, misturando tradições solenes e manifestações de júbilo popular- o sagrado e o profano.

O transporte das cabeças ao som de uma fanfarra, foi feito a maneira das procissões de sexta-feira santa: as cabeças estavam expostas, a multidão seguia em cortejo, comparadas como nas estações da VIA SACRA. Na cidade de Santana do Ipanema, as cabeças dos cangaceiros, foram expostas diante da igreja, com um cuidado verdadeiramente cenográfico, como caricaturas de ex-votos. Uma das fotografias mais célebres que ilustra a tragédia final é, incontestavelmente, aquela que retrata essa composição macabra: caricaturas de relíquias glorificando o poder constituído- encenação que vem confortar o estado novo instituído havia pouco tempo com Getúlio Vargas, sacrarização do poder por intermédio da mutilação do inimigo. Nas fotografias de cabeças cortadas, ou de corpos decaptados, o corpo foi plástica e efetivamente tratado com violência. A imagem aqui é destituída de seu poder de sacrarização do sujeito, e não passa de um objeto difamador, que sugere exclusão, uma despossessão post-mortem. A fotografia torna-se um instrumento de demonstração que obedece a rituais de exposição de corpos mutilados- regras arcaicas que, nesse momento, já não são mais as do poder instituído. Sem dúvida, essa iconografia mórbida foi desejada das autoridades, como uma afronta , um gesto de guerra, ou uma demonstração de poder. De certa forma, seria o contra-ponto ao discurso da invulnerabilidade dos cangaceiros, a negação do mito de Lampião. A lei, as forças de ordem devolvem a Lampião sua imagem invertida; á exposição por Lampião das fotografias que mostram seu poder responde a exposição dos corpos mutilados. Logo a seguir, a cabeça de Lampião foi estudada por médicos legistas, que tentaram, segundo os esquemas  lombrosianos, desvendar nela os estigmas de uma possível  degenerescência. Até 1969, foi conservada como um troféu no instituto Nna Rodrigues, de Salvador, onde anos antes figurava a cabeça de Antonio Conselheiro, o profeta da revolta messiânica de canudos.

Texto do livro Cangaceiros

Autora: Elise Jasmin

Editora: Terceiro Nome

Arquivo: João Edson de Aguiar

Fotos: Benjamin Abrahão


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