Corpo do cardeal Dom Paulo Evaristo Arns é sepultado na Sé, em SP



1O corpo de Dom Paulo Evaristo Arns foi sepultado na tarde desta sexta-feira (16) na cripta da Catedral da Sé, no Centro da capital paulista. O arcebispo emérito de São Paulo morreu na quarta (14) em decorrência de uma broncopneumonia, aos 95 anos. O cardeal se destacou na luta pelos direitos humanos durante a ditadura militar.

Cem pessoas participaram da cerimônia na cripta do templo, incluindo franciscanas da Ação Pastoral, autoridades, parentes de Dom Paulo, além de padres e cardeais. Os fiéis puderam acompanhar o sepultamento por telões instalados na Praça da Sé.

O corpo de Dom Paulo foi levado para a cripta após a celebração da última missa do velório, celebrada pelo arcebispo Dom Odilo Scherer. Nas 36 horas em que o corpo do cardeal foi velado, na Catedral da Sé, foram realizadas missas a cada duas horas.

Durante a missa, foi lido o testamento do cardeal, no qual ele afirmou que os bens dele ficarão com a Casa São Paulo porque a instituição “acolhe padres doentes e idosos”.

Otília, Zélia e Felipe Arns, irmãos do cardeal, foram nesta sexta-feira à igreja e ficaram ao lado do corpo nos momentos finais do velório. “O amor dele pelo próximo sempre foi muito grande”, disse Otília.

Sobrinho de Dom Paulo, Clovis Arns Nunes disse que o cardeal deixou duas mensagens. “Primeiro [mensagem] de esperança. Nas mensagens de Natal e Ano Novo, ele mandava um cartão escrito pelo próprio punho, com a letra um pouco tremida, que dizia. ‘A esperança é como uma criança que mesmo pequena é o maior dom’. A segunda mensagem dele é de coragem, coragem pra enfrentar a ditadura e fazer a ação pastoral”, disse o sobrinho.

Entre as autoridades presentes estiveram o governador Geraldo Alckmin, o prefeito Fernando Haddad, o prefeito eleito João Doria e o ministro da Justiça, Alexandre de Moraes. Alckmin, Haddad e Doria entraram na cripta após na hora do sepultamento.

Nesta quinta-feira, estiveram no velório o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, parentes do cardeal, amigos, além de fiéis que lotaram o templo.

Despedida

Centenas de fiéis foram à Sé se despedir de Dom Paulo. A professora Maria do Carmo Souza, 60 anos, foi à catedral acompanhar a cerimônia. “Moro no bairro do Limão e frequento a igreja católica, mas aqui na Sé venho raramente. É uma pessoa que vai deixar saudade, um exemplo a ser seguido e por isso precisamos prestigia”, afirmou.

Maria Lúcia Martins Cronenberg e Antonia são irmãs e vieram de Osasco para a despedida. “Ele vai deixar um legado de exemplo para a igreja, principalmente na área social, ninguém fez aqui o que ele fez desde a ditadura. Tomei café na casa paróquial com ele uma vez”, disse.

‘Cardeal da resistência’

Quinto de 13 filhos de imigrantes alemães, Arns nasceu em 1921 em Forquilhinha, Santa Catarina. Ingressou na Ordem Franciscana em 1939 e iniciou seus trabalhos como líder religioso em Petrópolis, no Rio de Janeiro. Formou-se em teologia e filosofia em universidades brasileiras. Ordenado sacerdote em 1945, ele foi estudar na Sorbonne, em Paris, onde cursou letras, pedagogia e também defendeu seu doutorado.

Foi bispo e arcebispo de São Paulo entre os anos 60 e 70. Teve uma atuação marcante na Zona Norte da cidade, região em que desenvolveu inúmeros projetos para a população de baixa renda.

Ao longo de sua trajetória, trabalhou ainda como jornalista, professor e escritor, tendo publicado 57 livros. Torcedor fanático do Corinthians, ele sempre exaltou seu amor pelo clube paulista e escreveu o livro “Corintiano Graças a Deus”.

Durante a ditadura militar, destacou-se por sua luta política, em defesa dos direitos humanos, contra as torturas e a favor do voto nas Diretas Já. Ganhou projeção na militância em janeiro de 1971, logo após tornar-se arcebispo de São Paulo e denunciar a prisão e tortura de dois agentes de pastoral, o padre Giulio Vicini e a assistente social Yara Spadini. No mesmo ano, apoiou Dom Hélder Câmara e Dom Waldyr Calheiros, que estavam sendo pressionados pelo regime militar.

Nesse período, encontrou-se com o então presidente, Emílio Garrastazu Médici e questionou a truculência da ditadura: “Senhor presidente, eu estou aqui pra dizer ao senhor que nós gostaríamos que houvesse julgamento em São Paulo, que as pessoas não fossem presas assim sem mais nem menos”, diz. Por ter sua história marcada pela defesa dos direitos humanos durante a ditadura, recebeu o apelido de “cardeal da resistência”.

 

Fonte: G1


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